sexta-feira, 16 de março de 2012

AS TENTATIVAS DE RENOVAÇÃO DA HQ BRASILEIRA (ESCALA GRAPHIC TALENTS-2001)





Capa do número de estreia da série, com o MICO LEGAL, de Sérgio Morettini.

Em 2001, a Editora Escala lançou uma das mais significativas empreitadas em prol da renovação da hq brasileira. Ela convidava artistas novos ou veteranos a apresentarem seus personagens em uma revista, que deveria ser entregue absolutamente pronta para a editora (diagramada, colorida e letreirada). A eles caberia fazer a revisão final , lançar e distribuir para todo o Brasil, uma tiragem inicial de 30 mil exemplares. Caso as vendas dessa única edição, fossem satisfatórias, seria feito um contrato com o autor, para mais três edições. Depois, um contrato para mais dez, e assim por diante. Seriam lançadas duas edições por mês, ao custo de R$1,50 nas bancas.
Assim surgia GRAPHIC TALENTS, selo idealizado por Carlos Mann do Estúdio Mercado Editorial, tendo como editor o jornalista e também quadrinista Dario Chaves. Vale lembrar que esse era um dos estúdios que mais produzia revistas (principalmente de hqs) para a Escala. Funcionou inclusive durante um tempo, na antiga sede da própria editora na Casa Verde. Através desse selo o público de hqs pode conhecer novos personagens, retomar contato com outros mais antigos, conhecer e admirar novos e talentosos quadrinistas.
O número 1 trouxe ao público uma aposta acertada no gênero infantil. MICO LEGAL, de Sergio Morettini, apresentou uma linguagem leve, bem humorada, nos traços de um dos mais talentosos e versáteis desenhistas brasileiros. As aventuras de um mico leão dourado e seus amigos, sempre procurando defender a floresta onde moram, venderam entre 12 e 15 mil exemplares e permitiram a editora lançar mais três edições. Essa segunda fase viria com numeração própria, sem o selo da coleção. Eu tive a oportunidade de produzir os quatro números da série, entregando a revista pronta para a editora. Foi agraciada com o Troféu HQ MIX de melhor revista infantil de 2001 e eu ganhei o Troféu Angelo Agostini de melhor colorista pelo mesmo trabalho. O lançamento aconteceu em 11 de novembro de 2001, durante o 2º FEST COMIX, evento que já começava a movimentar fãs e aficionados por toda a cidade. Nesse mesmo evento foi lançado também o número 2 do GRAPHIC TALENTS, trazendo a personagem BETTY GRUPPY, de autoria de Maxx Figueiredo. Com uma proposta e um visual mais jovem, as histórias mostravam o dia-a dia da tresloucada personagem entre baladas, paqueras, TPMs e muitas confusões. Ela inclusive esteve presente no lançamento, em uma grande sacada de marketing feita pelo autor, que contratou uma atriz para interpretar a personagem, que circulou entre os presentes autografando os primeiros exemplares da revista.


Betty Grupy, a estrela do número 2.



O número três nos trouxe TRISTÃO de Estevão Ribeiro, com arte de Amauri Ploteixa. No estilo mangá, apresentava as aventuras do personagem-título que, depois de pertencer a um grupo de assassinos, passa para o lado do bem e investiga o sequestro da filha de um empresário na cidade de Vitória, ES.
O número quatro trouxe uma reunião de 16 cartunistas comandada por Rodnério Rosa. Intitulada TALEBANG, apresentava cartuns e charges de vários autores, como Bira, Alecrim, Rodrigo Rosa, Santiago entre outros, enfocando a guerra entre Estados Unidos e Afeganistão e seus desdobramentos, sempre com muita irreverência e bom humor.




O número 5 revelou-se uma grata surpresa. Apesar de já estar sendo distribuído pela Agência Estado para vários jornais do país, o grande público ainda não conhecia GRUMP, personagem do cartunista Américo
Orlandeli, ou simplesmente Orlandeli. Com uma boa dose de humor, em histórias engraçadíssimas a revista fez sucesso e ganhou inclusive o Troféu HQ MIX de melhor revista de humor de 2002. O autor continua fazendo sucesso e foi vencedor do Salão de Humor de Piracicaba em 2008, com a série de tiras SIC, publicada depois em livro pela CONRAD EDITORA.


O número 6, fazia mais uma incursão no gênero mangá. GAMEMON de autoria de Arthur Garcia, apresentava a história de Théo, um garoto que descobre uma carta mágica que pertencia ao seu avô. Através dessa carta, ele acaba invocando um monstrinho chamado Pingomon, e descobre também que seu pai abandonou a família para percorrer o mundo atrás das outras cartas mágicas. E resolve ir atrás dele. Sugeria uma continuação que não aconteceu. Convidado pelo autor, colorizei e letrerei a edição inteira e fiz assim minha segunda participação no selo.
O número 7, apresentou DÁLGOR, de autoria de Dario Chaves, editor do selo. Com desenhos de José Carlos Chicuta e cores de Renato Gomes e Alex Guimarães, mesclava elementos de ficção científica com ação e suspense.


O número 8 tirava da gaveta uma série criada na década de 1990 na Editora Nova Sampa. A TURMA DO BARNABÉ, de autoria de Franco de Rosa, fora concebida para ser uma franquia, que se desdobraria em uma série de outras publicações. Na época, apenas a revista de atividades foi lançada, ficando o gibi na gaveta, produzido por uma grande equipe formada por Mingo, Genival de Souza, Edil Araújo, Vanderlei Felipe e João Costa. Focava nas aventuras de uma turma que, vivendo no campo, se envolvia em situações bastante engraçadas.



ZÉ LOUQUINHO E URUBUNALDO foi o número 9, da série GRAPHIC TALENTS. Apresentava uma série mais voltada para o público adolescente, que curte skate, ciclismo, música e tudo mais. Criação de Wilson Gandolpho, de Araraquara.
O número 10 nos trouxe uma mangá cômico criado por Alexandra Teixeira e Henrique Magalhães. ZUZNA, era uma gênia não da lâmpada, mas sim do bule, que se envolvia em situações muito divertidas.
LELECO, criação de Antonio Lima, estrelou o n. 11 da série. Trazia para os quadrinhos o universo do futebol, enfocando as aventuras de um time formado por crianças. Antonio Lima apresentava então o seu primeiro trabalho autoral, depois de muitos anos atuando com arte-finalista de quadrinhos Disney.




VELTA, de Emir Ribeiro, era a edição de n. 12. Já conhecida do público que curte hq nacional, a voluptuosa heroína retornava com suas aventuras cheias de ação e muito charme. Na mesma época, era lançado também um álbum de luxo, vendido apenas em comic shops.
Criação de Raimundo Guimarães, ex-roteirista Disney, O GALO COSTA trouxe para o público no número 13, as aventuras hilariantes de um galo, que sendo detetive particular, se envolvia em diversas situações para resolver seus casos. Retornei ao GRAPHIC TALENTS pela terceira vez, colorindo e letreirando essa edição, que foi considerada uma das melhores do selo, sendo posteriormente republicada em almanaque.





O número 14 trouxe CARCEREIROS, uma trama de mistério e suspense. Criação de Nestablo Ramos Neto, com cores de Eduardo Miranda, apresentava a história de uma sociedade secreta de pessoas que podiam ver demônios andando entre nós. Com um desenho belíssimo e uma trama envolvente, fez com que muitos considerassem como sendo a melhor série apresentada pelo selo. O autor é hoje um dos grandes expoentes da nova safra de quadrinistas. Lançou com grande sucesso em 2009, o álbum ZOO, pela HQM Editora, premiado com o Troféu Bigorna de melhor álbum de aventuras. No ano seguinte, ZOO entra na lista do PNBE, sendo distribuído nas escolas por todo o Brasil. Participa também da revista LULUZINHA TEEN (Pixel-Ediouro) e do SESINHO (publicado pelo SESI), e está preparando o mangá POLE POSITION (sobre carros de corrida) e a volta de CARCEREIROS.


O n. 15 traz mamíferos da pré-história como personagens, na série OS PLEISTOCÊNICOS, de autoria da ilustradora Dadí, já publicados no jornal Correio Popular, de Campinas.
Para o n. 16, outra grata surpresa. LOBO GUARÁ, de autoria de Carlos Henry, arte de Elton Brunetti e cores de Gabriel Rocha, trazia um herói habitante da Amazônia que teve seus genes humanos misturados com o do animal que lhe dá o nome. Um trabalho altamente profissional que será republicado em 2012 pela editora Mobicomics especializada em quadrinhos para internet.


E quando a série atingia uma certa maturidade e alcançava um excelente nível de qualidade, vem o cancelamento. Apesar de toda a movimentação que ela provocou no mercado, fazendo com que artistas e criadores botassem a mão na massa para apresentar suas séries para avaliação, as vendas, que ficavam entre seis e dez mil exemplares, não sustentavam mais o grande investimento feito pela Escala em parceria com a distribuidora Fernando Chinaglia. Apenas o MICO LEGAL (número 1 da série) criado por Sérgio Morettini, conseguiu ultrapassar a barreira e lançar mais três edições. Com isso, projetos que já haviam sido entregues, ficaram na gaveta. Como a hq OSVALDO, criada por Edgar Guimarães e desenhada por Antonio Eder. Essa só chegou ao público em 2006, por iniciativa da editora Marca de Fantasia. Outra que ficou de fora foi CHICLEMAN, de André Almeida.


Capa da edição de OSVALDO, pela MARCA DE FANTASIA.

Para tentar resolver o problema, a ESCALA lançou tempos depois um almanaque, contendo algumas das edições que haviam ficado na fila para publicar e algumas reedições. Nesse almanaque, foi publicada na íntegra o que seria a edição 17 do selo: VISÕES DE CLAUDECIRO, do genial Marcatti. Apresentou também o que seria o numero 18: METEORO, de Roberto Guedes, uma excelente hq que, nos traços de Marcelo Borba, apresentava as aventuras de Ric Marinetti que se transformava no super-heroi METEORO para combater o crime. Republicou O GALO COSTA, entre histórias avulsas desenhadas por Mozart Couto e Flávio Colin. Um elenco realmente muito bom.


Capa do ALMANAQUE DE QUADRINHOS, com destaque para METEORO. Era o fim do selo GRAPHIC TALENTS.

E assim chegou ao fim uma das mais interessantes iniciativas em prol do quadrinho brasileiro. Infelizmente, nem o grande investimento feito pela ESCALA em parceria com a distribuidora FERNANDO CHINAGLIA, nem a criatividade de nossos artistas aventurando-se nos mais variados gêneros, permitiu a continuidade da série, ou melhor, o lançamento individual de algum título publicado, com periodicidade regular. Porém, o saldo é positivo. Revelou talentos (Nestablo Ramos, Orlandeli, Estevão Ribeiro, entre outros), ganhou prêmios (HQ MIX para MICO LEGAL e GRUMP) e incentivou artistas a se lançarem de forma independente. Em 2010, a Editora HQM tentou editar uma série nos moldes da GRAPHIC TALENTS. Foi a SÉRIE INFANTO-JUVENIL HQM, que também publicaria um título diferente a cada edição. Foram anunciados: SENNINHA, HISTÓRIAS DA BÍBLIA, XAXADO (Cedraz), PET (Nestablo Ramos), RAN (Salvador), MICO LEGAL (Morettini), METEORO (Roberto Guedes). Só saiu o número 1, com o SENNINHA. Cedraz lançou XAXADO E SUA TURMA em título próprio (4 edições) pela mesma editora. Só nos resta aguardar e torcer para alguma editora criar coragem e voltar a investir no quadrinho nacional de autor, e não só em adaptações de clássicos ou coisas do gênero, visando as compras governamentais. A Abril já está fazendo a sua parte lançando três títulos inéditos (GEMINI 8, UFFO e GAROTO VIVO), a um preço bastante interessante. Cada exemplar custa R$1,95. Porém hoje, para alcançar o público, não basta lançar só o gibi. O personagem tem que estar na internet, ter site, blog, ou portal. Tem que ter sua versão animada. Se possível na TV e na internet também. O autor tem que fazer muito barulho. Mas nossos heróis (não os personagens, mas os autores de hqs) não desistem. Ainda bem. Aguardem novidades.


Capa inédita do número 18 do GRAPHIC TALENTS que seria com o METEORO, de Roberto Guedes.

 
 
 
Algum tempo depois, Marcatti republicou de forma independente a hq VISÕES DE CLAUDECIRO, que deveria ser o número 17 do selo e que havia saído apenas no Almanaque. Pela sua editora PRO-C, com o título FÁBULAS DO ESCÁRNIO.

5 comentários:

  1. Grande Alexandre! Excelente post. Lembro que quase participei da seleção com a Jaguara, mas eu só tinha desenhado o primeiro capítulo naquela época. Lembro que em 2000 eu conversei com o Carlos Mann e mostrei a Jaguara pra ele. Rolou um interesse por parte deles e até uma sugestão de fazer algo erótico (!) com ela, que prontamente disse que não era isso que eu queria. Quando fui conversar com o Vardi (que era parceiro no projeto na época) sobre a possibilidade de publicação pela Escala, ele achou melhor não, pois estava "brigado" com o Carlos sobre a revista que o daniel publicava pela Escala. Enfim, seu post me fez lembrar isso... Parabéns!

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    1. Puxa, que pena! Seria muito legal se tivesse o gibi da Jaguara nessa coleção! Aliás, espero que ela volte logo ao mercado! Precisamos cada vez mais de quadrinhos brasileiros de qualidade e a Jaguara é uma excelente hq! Obrigado pelos elogios! Abração!

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  2. nossa eu tinha o gamemom e o grump, sinto mt falta desses gibis, eu queria poder ler de novo eles, mt nostalgia

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  3. Em 2001 eu tentei. Sai de um emprego comecei a desenhar, escrevi a historia de um cavalo e passei para o papel, eu não tinha computador para fazer a arte final e também não saberia como, um amigo ficou de fazer mas logo desistiu e eu perdi o prazo. Isso iria me marcar demais, fui até a editora Conrad, mostrei os desenhos para "sei la quem" que me criticou, mandou eu mudar o traço o papel tudo e com um último fôlego eu mandei 3 desenhos para editora Dargout em Paris-França. Fui elogiado mas infelismente não fizeram nada. Isso me motivou a comprar um computador e fazer um site, virei professor de informatica entrei na faculdade de sistemas de informação e fiz como tcc um sistema on line chamado Rosa dos Ventos - Rede social de artistas anônimos tinha como objetivo achar e patrocinar ou puplicar artistas. Na época o desenvolvedor não conseguil terminar e eu programei até certo ponto mas nao a ponto de publicar. Passado alguns anos publiquei um livro Tenda noite Arabe, um romance, e agora estou finalizando outro chamado Crônicas e Contos do brejo por Sapo Drama e tudo que falta são os desenhos, que grande ironia, hoje eu não tenho mais tempo nem paz para desenhar. Estava vendo na HBO2 uma série de artistas de HQS o que me comoveu, eu tentei mas fiquei no caminho e hoje grito pelo meu artista interior do passado mas ele dorme e ronca alto, briga com o analista de sistemas.
    Como disse fernando pessoa em Tabacaria:
    "Fiz de mim o que não soube e o que poderia ter feito, nao fiz

    Estou ao pé de uma parede sem porta.
    Mas hoje na maturidade enxergo todo processo natural de evolução, cada um tem seu caminho e a vida bastante mistério.

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